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As origens de Garrincha

Por Amilton Farias
11/02/2024 - 14:20
em Sociedade
Foto: Divulgação

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Se Garrincha era ligeiro e cheio de habilidade, é porque tinha no sangue ser como flecha. Alçado a gênio pelo futebol, teve de se equivaler aos índios Fulni-ô em graça e paixão, porque dali tinha saído sua família. Longe do Rio de Janeiro, onde nascera Mané, a tribo resiste e preserva sua identidade: fala-se a língua yathê e mantém-se, mesmo que de forma sigilosa, o ritual do Ouricuri. E se ama o futebol.

A primeira vez em que as raízes de Garrincha se tornaram públicas foi no livro “A estrela solitária” (Companhia das Letras), do jornalista Ruy Castro. A tribo, que existia nas regiões do Agreste e do Sertão de Pernambuco e de Alagoas, deu origem aos pais de Garrincha, em meio a perseguições políticas, desemprego e êxodo para outras regiões do Nordeste.

Em Alagoas, não há mais história para ser contada. Do município de Quebrangulo, cidadezinha do interior onde viveu o pai de Garrincha, Amaro Francisco dos Santos, os fulni-ôs já saíram. Da família, não há recordações, como se não existissem, revela o jornalista Mário Lima, responsável por expandir a história da família de Garrincha em Alagoas no livro “A Flecha Fulni-ô de Alagoas” (Imprensa Oficial Graciliano Ramos).

Garrincha poderia ser mais um daqueles anjinhos da morte sertanejos, naqueles rituais de caixãozinhos de cor branca, cenário até pouco tempo visto nos lugarejos pobres do Nordeste”.
Mário Lima, em uma das reportagens que deram origem ao livro

Isso não aconteceu porque o pai de Garrincha, Amaro, deixou Quebrangulo aos 26 anos e migrou para o Sul. Precisava fugir da pobreza e da fome. Foi o mesmo caminho que muitos indígenas e nordestinos fizeram na mesma época. Assim, o menino das pernas tortas nasceu no Rio de Janeiro para entrar na história do futebol brasileiro. O final todo mundo já conhece: duas Copas do Mundo, três campeonatos cariocas e vários torneios internacionais.

Os índios ainda sofrem

As dificuldades começaram quando as terras do Brasil foram divididas a partir das capitanias hereditárias, que serviram como um mecanismo de dispersão de populações nativas. A comunidade cresceu. A produção financeira, esperado por associações, não. Nas aldeias indígenas, faltou um comércio local produtivo para que o avanço fosse completo, de acordo com o ex-secretário municipal de assuntos indígenas da cidade de Águas Belas-PE, Paulo Pontes Lúcio.

Hoje, os fulni-ô não conseguem viver apenas de roça, pesca e caça. É necessário que saiam da aldeia para trabalhar na cidade. Essa cidade é Águas Belas, localizada na parte central da reserva indígena em que vivem. Os trabalhos costumam ser precários, apesar de muitos indígenas concluírem a graduação.

“O comércio funciona de domingo a domingo em uma cidade com mais de 50 mil habitantes, mas não tem dez indígenas com vínculo empregatício em empresas privadas ou com a prefeitura hoje. Eles se vinculam em órgãos estaduais ligados aos próprios índios, como Educação, Funai e Saúde Indígena (Sesai). A principal renda é aposentadoria e agricultura familiar”, conta.

Paulo, que também é indígena, revela que a tribo é a única nordestina que mantém o idioma nativo. O português também é ensinado na aldeia, assim como o yaathe. A língua resiste ao passar do tempo e utiliza técnicas usadas desde os tempos anteriores ao Brasil colônia para sobreviver. Os saberes são passados através da oralidade.”Ninguém lá deixou um documento dizendo o que fazer. Os anciãos passam para os mais novos e assim sucessivamente”, explica. Além da língua, conservam-se estudos antigos, etnia e cultura.

No entanto, a felicidade nem sempre acompanha os fulni-ô. Seus cânticos remetem ao que lhes é sagrado e, para eles, a mãe-terra é uma dessas energias sagradas. A demarcação de terra, por sua vez, já prejudicou e ainda prejudica muito esse povo que foi perseguido por coronéis e, agora, pelo preconceito.

A situação piorou após as novas políticas públicas destinadas aos povos indígenas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Durante suas lives ou discursos, Bolsonaro ficou conhecido ao ecoar a ideia de assimilação, ou “civilização” de indígenas, segundo a qual esses povos tendem a perder a sua identidade e integrar-se à população não-indígena.

Paulo explica que, há algum tempo, a comunidade frequentava mais rituais Ouricuri, que acontecem nas últimas semanas do mês de agosto e servem, entre outras coisas, para eleger suas autoridades — ou seja o Pajé, o Cacique e a Liderança. O ritual acontece durante três meses do ano e os índios ficam confinados na mata, sem contato com não-índios.

Todos os fulni-ô têm como norma a proibição de falar sobre o evento. Todos que infringiram a norma tiveram morte estranha. Mas, para chegar a este local do ritual, os índios faziam vários pequenos Ouricuri antes do principal.

“Os coronéis começaram a perseguir, queimaram as casas e acabaram os rituais. Daí foi ficando complicado a sobrevivência e muitos não voltavam. É o caso da família de Garrincha”, lamenta Paulo.

Economia e política indígena andam lado a lado

A aldeia tem porte de uma pequena cidade de interior, onde é possível encontrar água potável e casas de tijolo. Nos anos 90, a cidade de Águas Belas foi considerada a maior produtora de leite e feijão de Pernambuco. O título era fruto do trabalho dos índios, segundo o ex-secretário de assuntos indígenas.

Antes dos anos 90, mais de 9 mil hectares eram plantados por índios. Depois, o número parou de crescer e a tribo entrou em crise. Foram-se os coronéis, ficaram as perseguições “camufladas”.

Apesar da quantidade populacional estar estagnada, dois vereadores indígenas representam a tribo. As lutas para manter a organização são grandes. E não apenas contra o preconceito. Epidemias, como a que enfrentamos agora com o coronavírus, são ameaças constantes. Em 1856, por exemplo, um surto de cólera dizimou a aldeia. Restavam apenas 382 pessoas quando a doença foi controlada. Os dados mais antigos sobre a população fulni-ô remontam a 1749, catalogados no registro da “Informação Geral da Capitania de Pernambuco”. Atualmente, a população indígena chega a pouco mais de 4.300, e a maioria é de meia idade.

Mesmo que a história de Garrincha ecoe menos pelos nativos, o seu legado se mantém. A região possui dois campos de futebol que são revezados entre quatro times da própria tribo, além de duas escolas de futebol para crianças de 6 até 15 anos. Os times se chamam Guarani, Juventude, Palmeiras e Fulni-ô. Eles não disputam competições oficiais.

Visita à tribo em 2013 transforma reportagem em pesquisa

O alagoano Mário Lima sempre foi um apaixonado pelo Botafogo e por Garrincha. Aos 62, quando questionado sobre qual dos dois o fizera gostar do futebol, não soube responder. Como jornalista, quis contar a história de Garrincha em Alagoas desde que leu “A Estrela Solitária”, de Ruy Castro.

“Tinha uma bandeira de Alagoas no começo do livro e eu logo bati o olho. Mané me deixava curioso porque era gênio, meio maluco, bem diferente do Pelé. Então, comecei a pesquisar essa história dele aqui no estado mais a fundo”, conta Mário.

Por meio de pesquisas, o jornalista conseguiu localizar a tribo em Águas Belas-PE e descobriu que não havia mais índios em Alagoas. Em 2013, teve de viajar à cidade pernambucana para conhecer as origens de Garrincha e lá conversou com o cacique João Francisco dos Santos, que compartilha o mesmo sobrenome do pai e do avô do gênio do futebol.

“Antes do livro do Ruy Castro, essa origem do Garrincha era desconhecida. Na tribo, todo mundo se orgulhava. Um fulni-ô campeão do mundo, imagina. Consegui conversar com muita gente, assisti aos jogos de futebol, e lançar esse livro foi um grande orgulho para mim”, revela.

O livro foi lançado em 2014, no meio da Copa do Mundo disputada no Brasil, expandido após uma série de reportagens publicadas no jornal Gazeta de Alagoas. Além disso, Mário também escreveu um ensaio sobre a história e a transformou em tese em sua pós-graduação.

Nos anos 70, lembra o autor, Garrincha voltou a Alagoas. Consagrado mundialmente, jogou duas partidas: uma pelo CSA, de Maceió, e outra pelo ASA, de Arapiraca. Veio a convite de Dida, companheiro no mundial de 58 e segundo maior artilheiro do Flamengo. Nas duas partidas, foi vencedor.

Eteth’djoásê akeastoá tha sakfal’se etxel’kha üünimã

(Assim, o que ele fez, até hoje é lembrado, no idioma dos fulni-ôs)

Escola, cinema e rituais, tribo mantém língua indígena viva

Na escola estadual Marechal Rondon, em Águas Belas, no sertão de Pernambuco, alunos do sétimo ano prestam atenção na fala do professor Taity Correia. Para quem é de fora da aldeia dos Fulni-ô, não é tão simples entender o que ele explica. A aula é de Yaathe — ou iatê, em “português moderno”—, única língua indígena ainda viva no Nordeste brasileiro. Para a Funai (Fundação Nacional do Índio), a definição de única língua da região não considera as línguas dos povos do Maranhão, devido à inclusão do estado no território compreendido pela Amazônia Legal.

Por Bruno Fernandes e Josué Seixas

Tags: GARRINCHA
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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