“Quero cursar Direito”: o sonho dos jovens da Fundação Casa finalistas na Olimpíada de Matemática

Após histórico de evasão escolar, internos veem na matemática uma oportunidade de ingressar no ensino superior.

Modelo pedagógico com turmas reduzidas impulsiona desempenho de alunos em competições nacionais.. Divulgação/Fundação Casa

Araraquara–SP – Três adolescentes que cumprem medidas socioeducativas na Fundação Casa de Araraquara alcançaram um feito que promete mudar seus destinos: eles são finalistas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). O trio faz parte de um grupo de nove internos que se destacaram nas fases iniciais da competição nacional.

Lucas*, de 13 anos, Ricardo, de 17, e Maurício, de 16 anos, veem na conquista mais do que um título acadêmico, mas um passaporte para uma nova vida fora do sistema. “Se os outros conseguem, por que a gente não? Eu consigo ir além”, questionou Ricardo, que agora planeja cursar Direito.

A Matemática como Ferramenta de Ressocialização

A trajetória dos finalistas é marcada pela ruptura com o crime e o retorno ao ensino formal. Antes da apreensão, nenhum dos três frequentava a escola regularmente. Lucas, o mais jovem, relata que estava envolvido com o tráfico desde os 11 anos.

Na unidade, o ensino é obrigatório e fundamental para a progressão da medida socioeducativa. O sucesso dos alunos é atribuído a dois fatores principais:

  1. Ensino Personalizado: As turmas na Fundação Casa possuem entre 10 e 12 alunos, permitindo que os professores deem atenção individualizada, ao contrário das classes superlotadas do ensino regular.

  2. Abordagem Prática: O professor Hugo Tortorelli utiliza exemplos do cotidiano — como dosagem de medicamentos e lances de futebol — para desmistificar fórmulas e teorias.

“O mais importante não é a olimpíada, é voltar a estudar. Se de cada 100 alunos, cinco permanecerem na escola lá fora, já me sinto realizado”, afirma Tortorelli.

Desafios do Retorno à Sociedade

Apesar do êxito acadêmico, o cenário externo permanece desafiador. Segundo dados da unidade, cerca de 80% dos 101 internos de Araraquara foram apreendidos por tráfico de drogas ou roubo. O apelo pelo consumo de itens de moda e a pressão de grupos nos bairros de origem são os principais obstáculos para que esses jovens mantenham o foco nos estudos após a soltura.

Para Maurício, que pretende cursar Engenharia, a escola agora é vista como um espaço de transformação e não apenas uma obrigação. O compromisso do corpo docente é garantir que a “ciência da cidadania” seja tão importante quanto o domínio dos números.

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