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Home Biografia

Biografia: Nina Simone

A cantora socialista de jazz será lembrada por seu envolvimento no Movimento dos Direitos Civis, que via a revolução como o caminho para a verdadeira igualdade.

Por Amilton Farias
31/03/2018 - 23:18
em Biografia
Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

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Conhecida pelo nome artístico Nina Simone, nascida em Tryon, 21 de fevereiro de 1933, Eunice Kathleen Waymon foi uma pianista, cantora, compositora e ativista pelos direitos civis norte-americanos. É bastante conhecida nos meios musicais do jazz, mas trabalhou com diversos estilos musicais na vida, como música clássica, blues, folk, R&B, gospel e pop.

O nome artístico foi adotado aos 20 anos, para que pudesse cantar blues escondida de seus pais, enquanto treinava para tornar-se uma pianista clássica, em bares de Nova York, Filadélfia e Atlantic City. “Nina” veio do espanhol de menina e “Simone” foi uma homenagem à atriz francesa Simone Signoret. Foi a sexta de oito filhos, sendo sua mãe uma ministra metodista e seu pai um marceneiro, quando jovem foi impedida de ingressar no Instituto de Música Curtis na Filadélfia, apesar de ter cursado piano clássico na severa Juilliard School, em Nova York. Também se destacou por posicionar-se contra ao racismo na crescente onda que tomava os Estados Unidos na década de 1960. Devido ao seu envolvimento, cantou no enterro de Martin Luther King.

Foto: Divulgação

Depois de fracassar na tentativa de ser uma grande concertista através do conservatório, Nina permaneceu algum tempo em Nova York até ir para Atlantic City e, nessa cidade, trabalhando como pianista em um bar, cedia aos pedidos do dono para cantar enquanto tocava piano. Adotou o nome Nina Simone, que deu início a uma carreira bem-sucedida, com hits como Feeling Good, Don’t Let Me Misunderstood, Aint Got No – I Got Life, I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free e Here Comes The Sun, além de My Baby Just Cares For Me, que foi usado em uma propaganda televisiva para o perfume Chanel Nº 5 em 1986, que ocasionou em um relançamento da gravação e na volta de Simone às paradas musicais.

Em sua carreira, interpretou canções de diversos estilos, indo do gospel ao soul, tendo também composto algumas canções. Foi uma das primeiras artistas negras a ingressar na renomada Escola de Música de Juilliard, em Nova Iorque. Sua canção Mississippi Goddamn tornou-se um hino ativista da causa negra. Fala sobre o assassinato de quatro crianças negras em uma igreja de Birmingham em 1963. Ao se apresentar em um evento militar em Forte Dix, Nova Jersey, em 1971, em plena Guerra do Vietnã, Nina Simone deu voz àqueles que eram contrários ao conflito, quando cantou um poema em que Deus é chamado de assassino, após 18 minutos de My Sweet Lord, de George Harrison.

Nina esteve duas vezes no Brasil, onde gravou “Pronta pra cantar (Ready to sing)” com Maria Bethânia em 1990. Seu último show ocorreu em 1997 no Metropolitan. Morreu enquanto dormia em Carry-le-Rouet em 2003, após lutar por vários anos contra o câncer de mama.

Simone participou ativamente de um momento considerado decisivo para a comunidade negra e continuou dedicando toda a sua produção musical para o assunto. (Foto: Facebook Oficial)
É uma obrigação artística refletir o meu tempo.”

O movimento dos direitos civis é um dos momentos mais importantes da história dos Estados Unidos, concentrado principalmente em estados do sul do país, os fatos ocorreram entre 1954 e 1968 e foram uma forma de resistência da comunidade negra que exigia o fim da segregação racial imposta por supremacistas brancos. O objetivo era questionar e boicotar decisões claramente racistas, como as proibições sociais cotidianas impostas aos negros e os direitos cedidos apenas às pessoas brancas o que, na visão dos estrategistas do movimento, provocaria uma crise e consequentemente um diálogo com as autoridades.

De ambos os sexos, ativistas famosos e anônimos faziam uso de variados instrumentos culturais para reunir as pessoas e discutir a importância do orgulho negro. O discurso estava presente no teatro com o espetáculo ’To Be Young Gifted and Black’ – peça de Lorraine Hansberry que falava de racismo, igualdade social e de gênero; em reuniões nas igrejas gospel da comunidade; na literatura e retórica dos envolventes discursos de Martin Luther King, Malcolm X e Rosa Parks e na música, principalmente na obra de Nina Simone.

Nina Simone estava determinada em usar a música em prol dos negros. (Foto – John Rudoff / Facebook Oficial)

Nascida em 1933, na Carolina do Norte, estado do sudoeste do país e fronteira com alguns dos pontos nevrálgicos dos conflitos raciais, Eunice Waymon, nome de nascimento da artista, sofreu desde pequena os males do racismo. Contudo, desde os primeiros contatos com as teclas de um piano, colocou na cabeça que seria a primeira pianista clássica negra dos Estados Unidos e foi em busca do sonho. O tempo passou e já atendendo pelo nome de Nina Simone, a jovem conquistou o público com um estilo que unia jazz, blues, música clássica e gospel. Em função de canções como ‘I Loves You Porgy’, Nina, mulher e negra, era disputada por importantes casas de show conhecidas pela predominância branca, como o Town Hall em Nova Iorque.

O sucesso da cantora crescia em compasso com os conflitos raciais. Muitos foram os estopins para a fúria dos negros, sendo o massacre de 1963 um dos mais marcantes, quando quatro crianças negras foram mortas em um atentado racista em uma igreja batista na cidade de Birmingham, no Alabama, logo após o assassinato do ativista Medgar Ever no Mississippi. Os fatos despertaram um sentimento novo em Simone, que percebeu o significado de ser negra nos Estados Unidos. Um momento crucial para a carreia da cantora, que resolveu transformar sua arte em política, se tornando um símbolo de expressão dos direitos civis e da luta do movimento negro.

Foto: Divulgação

O primeiro e duro recado da artista para as injustiças do país veio com ‘Mississippi Goddam’ (Mississippi puta que o pariu na tradução livre), que expressa toda sua raiva e indignação acerca da situação dos homens e mulheres negros dos EUA. A faixa era um hino político e suas letras cheias de raiva e desespero contrastavam com o conhecido repertório da artista e deixavam claro o objetivo de Simone de usar sua música como mais um instrumento em favor dos direitos civis.

No ano seguinte Simone, grande amiga da escritora Lorraine Hansberry, gravou um dos hinos dos direitos civis, ‘To Young Gifted and Black’, homenagem ao trabalho da amiga, conhecida por usar a arte como ativismo em prol dos negros e também por despertar a consciência política de Nina. No entanto, a guinada política de Nina não trouxe apenas benefícios para a cantora, que passou a ser negligenciada e evitada pelas casas de músicas, gravadoras e parte do público, que evitavam se envolver diretamente com a causa. Esgotada com a violência dos conflitos e com a rejeição imposta por uma cultura ainda racista, Nina Simone resolveu se afastar dos holofotes e deixou os Estados Unidos em 1970. Morou em Barbados, e em seguida passou um longo período na Libéria, depois Suíça, Holanda e França, onde acabou fixando residência.

O movimento dos direitos civis deixou feridas profundas na sociedade norte-americana ao mesmo tempo que inspirou e inspira jovens dispostos até hoje a mudar a realidade de homens e mulheres negros. Tal como antes, as artes e especialmente a música vem exercendo papel fundamental nas mudanças. Nomes como Erykah Badu, Lauryn Hill e muitos outros beberam na fonte e seguiram os corajosos passos de Nina Simone em busca de uma sociedade que precisa aprender de uma vez por todas a conviver com as diferenças. Nina Simone faleceu em 2003 deixando um legado ímpar para o mundo da arte e emblemático para a luta pelos direitos civis e igualdade racial.

Tags: biografiahistóriamemória
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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