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Home Geral

Biografia: Carlos Lamarca

Por Amilton Farias
18/09/2021 - 02:25
em Geral
Foto: Reprodução

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Ele entrou na carreira militar bastante cedo e, alguns anos após o golpe, chegou a ser capitão do Exército brasileiro. Mas, em 1969, já engajado na luta armada contra o regime, desertou e foi expulso da corporação no ano seguinte. Considerado em certo momento o inimigo número um do regime, foi duramente perseguido e fuzilado pelos militares.

Um momento marcante de sua formação foi em 1962, quando foi enviado para integrar as forças de paz da ONU na região de Gaza (Palestina), de onde voltou 18 meses depois. Uma experiência que marcou sua vida e sensibilizou o jovem contra as injustiças sociais.

Em 1967, foi promovido a capitão e, dois anos depois, já militante da organização que daria origem à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organizou um grupo de militares do 4º Regimento de Infantaria para desertarem daquela unidade, levando consigo 63 fuzis e metralhadoras leves que deveriam servir para a luta armada contra a ditadura.

Para manter a segurança da família, Lamarca mandou a mulher e os dois filhos para Cuba, onde viveram por dez anos. Em 1959, ele havia se casado secretamente com Maria Pavan, sua irmã de criação, que já esperava o primeiro filho do casal.

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Na VPR, conheceu Iara Iavelberg, por quem se apaixonou imediatamente. Os dois passaram a viver juntos em diversos aparelhos pelo país. As cartas de amor que trocaram nesse período são conhecidas, assim como o famoso diário do guerrilheiro, com textos dirigidos a ela.

Dentre suas ações contra a ditadura, está o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970, que resultou na libertação de 70 presos políticos dos porões da ditadura, além de vários assaltos a bancos para financiar as ações do grupo armado. Viveu quase um ano clandestino em São Paulo, participando de ações de guerrilha urbana, até se instalar no Vale do Ribeira, com um reduzido grupo de militantes, para realizar treinamentos militares.

O local foi descoberto pelos órgãos de segurança em abril de 1970 e cercado por tropas do Exército e da Polícia Militar. Uma gigantesca operação de cerco se prolongou por 41 dias, mas, após dois choques armados, o pequeno grupo guerrilheiro, sob a liderança do capitão rebelde, conseguiu escapar rumo a São Paulo.

Em março de 1971, seis meses antes de sua morte, desligou-se da VPR para se integrar ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que o deslocou para o sertão da Bahia, no município de Brotas de Macaúbas, com a finalidade de estabelecer uma base da organização naquela região.

Em 17 de setembro de 1971, Lamarca foi fuzilado por integrantes da “Operação Pajuçara”, em Ipupiara, no interior da Bahia. Essa operação, iniciada em agosto de 1971, entrou para a história como uma das mais violentas, sobretudo em Buritis, que se tornou à época um verdadeiro campo de concentração, com torturas e assassinatos em praça pública, diante da população.  Lamarca tinha 34 anos quando morreu.

Mais de 30 anos depois, em 2007, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu a patente de coronel do Exército a Carlos Lamarca e o status de perseguidos políticos à sua primeira esposa, Maria Pavan Lamarca, e a seus dois filhos, que passaram a ter direito a pensão e indenização. Em 2010, entretanto, acatando ação do Clube Militar, a juíza Cláudia Maria Pereira Bastos Neiva suspendeu a decisão da Comissão de Anistia. A questão continua indefinida.

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Em 1980, Emiliano José e Oldack Miranda escreveram a biografia “Lamarca: o capitão da guerrilha”. E em 1994 o diretor Sérgio Rezende lançou o filme Lamarca, baseado no livro.

Trecho de carta de Lamarca a seus filhos

“Brasil, 26 de julho de 1969
Aos meus filhos
Vivo falando de vocês com meus companheiros, eles estão longe dos filhos também e falam nos filhos deles. Um só é o desejo de todos nós, é que nossos filhos sejam revolucionários. O que é um revolucionário? É toda a pessoa que ama todos os povos, ama a Humanidade, tem uma imensa capacidade de amar, ama a justiça, a igualdade. Mas ele tem de odiar também, odiar os que impedem que o revolucionário ame, porque é uma necessidade amar. Odiar aos que odeiam o povo, a Humanidade, a justiça social. Odiar aos que dominam e exploram o povo, odiar aos que corrompem, ameaçam e alienam as mentes, aos que degradam a Humanidade, aos injustos, falsos, demagogos, covardes”

Trecho de cartas de Lamarca a Iara:

“Sonhei com você. Acordei num misto de alegria e tristeza – compreendi que te desejava. (…) Sinto-me oco. Esse estado não posso superar, o que posso fazer? No fim, um cocô atolado”.
“Sonhando com você, acordo no meio da noite e volto a sonhar. Sonhei com você até nas vias de fato, pode? Ora, por que o sonho? Necessidade sexual não pode ser só, já sonhei inclusive nesse nível com você. Como, até mesmo dormindo contigo sonhei, só posso concluir que a minha cuca é mais complicada do que eu pensava”.

Trecho de carta de Lamarca a sua esposa:

“Brasil, 26 de julho de 1969
Minha querida esposa,

O meu pensamento vive voltado para essa ilha, constantemente, mas o dia de hoje se reveste de especial atenção, de meditação, o pensamento que aflora é iniciar – cumpre iniciar a luta. Ainda não recebi notícias.

A organização a que pertenço, a Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR-Palmares), que nasceu da fusão da Vanguarda Popular Revolucionária com o Comando de Libertação Nacional, não tem canal de comunicação com a ilha, só quem tem é o Marighella. Aí pensam que ele é o líder e o comandante da revolução no Brasil. É engano, primeiro porque não tem qualidades para isso, é egoísta, personalista e desleal, e segundo porque a organização dele (não tem nome – usa-se o nome dele) é mal estruturada; muitos militantes dele estão passando para a nossa organização.

A concepção brasileira da luta é a seguinte: quem imprime a luta no campo são as cidades. O fundamental é a luta no campo, mas, se ela iniciar e for derrotada no campo, a organização bem estruturada nas grandes cidades, dentro de pouco tempo, pode reiniciar. A nossa organização é a única que está bem estruturada nas grandes cidade e já começamos a organizar no campo. Antes não havia nada e nenhuma organização sozinha poderia levar o processo à frente – agora vamos.”

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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