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Home Geral

7 Obras da literatura japonesa que você precisa conhecer

Por Amilton Farias
03/01/2023 - 19:09
em Geral
Foto: Reprodução

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Mishima, Kawabata, Yoshikawa, Okakura e Murakami – autores do Japão que enriquecerão seu universo literário.

Certo, falemos sobre ???? (literatura japonesa).

Por mais que a literatura do Japão cubra um período de mais de dois milênios, trataremos apenas de obras mais recentes e, desta forma, mais acessíveis a você. Primeiramente influenciada pela China, até o período Edo, com a abertura dos portos e trocas comerciais, no século XIX, passou a ser influenciada pela literatura ocidental, mesclando sua tradição com as estruturas europeias.

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Se você já conhece a literatura japonesa, provavelmente as indicações abaixo não lhe serão estranhas, mas se ainda não leu nenhum autor da “Terra do Sol Nascente”, funcionará como os pratos de entrada para um jantar um tanto diferente.

***


Mar da Fertilidade (tetralogia), de Yukio Mishima

Nobel de literatura em 1968, Yasunari Kawabata se mostrou inconformado por preferirem premiá-lo em lugar de Yukio Mishima. Segundo ele, Mishima era um acontecimento, um ser humano que a humanidade só vê de trezentos em trezentos anos.

A própria vida de Yukio Mishima é um capítulo à parte – ele cometeu osepukku (suicídio dos samurais) após um golpe de estado mal-sucedido –, mas sua obra tem força por si só. Uma das partes mais impressionantes dela é a tetralogia Mar da Fertilidade, composta de quatro volumes: Neve de Primavera, Cavalo Selvagem, O Templo da Aurora e A Queda do Anjo.

Embora possam ser lidos individualmente, os quatro livros têm no advogado Honda uma espécie de “observador” de como o mundo se comporta, desde sua adolescência até a velhice. A temática reencarnação se debate contra seu ceticismo, assim como a resistência à ocidentalização do Japão. Mas é nas metáforas poderosas e personagens complexos que se esconde a riqueza desta obra.


A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

Além de amigo e mentor de Yukio Mishima, Yasunari Kawabata é considerado um dos mais importantes romancistas japoneses. Aplicado em estudar a “técnica do romance”, ele mesclou as influências de seu país ao gênero que se popularizou pelo mundo inteiro. No começo, Kawabata utilizou um pouco do surrealismo em suas obras, porém aos poucos foi se tornando expressionista, construindo narrativas de complexidade psicológica e erótica. A leveza com que escreve acabou tornando-o conhecido como alguém que “pinta as palavras” de branco irradiante.

A Casa das Belas Adormecidas é uma de suas obras mais apreciadas, que inclusive influenciou Gabriel García Márquez a escrever Memórias de minhas putas tristes.

O livro de Kawabata tem Eguchi, um velho de sessenta e sete anos, como seu protagonista. E a história se desenrola a partir do fato de ele descobrir que há uma casa onde meninas são adormecidas para divertimento dos clientes, de forma com que eles possam passar a noite com elas.

O que pode parecer “grosseiro”, na verdade se mostra um intenso ensaio emocional sobre a velhice e o declínio do homem.


Musashi, de Eiji Yoshikawa

A obra literária mais vendida da história do Japão, com mais de 120 milhões de exemplares e cerca de quinze versões cinematográficas ou televisivas, Musashi, escrito por Eiji Yoshikawa, foi publicado como um folhetim, em pequenos capítulos diários, no jornal Asahi Shimbun, entre os anos de 1935 e 1939.

Miyamoto Musashi é um personagem verídico da história japonesa, contudo, nesta obra Yoshikawa romanceou a trajetória do samurai mais famosos do Japão.  No começo do livro, o jovem não passa de um provinciano rebelde, que se deixa levar pela ideia de participar da batalha de Sekigahara, em 1600. No entanto, após as duras lições que recebe do Monge Takuan – entre elas um confinamento de três anos, onde apenas se dedicou à leitura –, Musashi passa a seguir o Bushido, o caminho do guerreiro.

O obra é dividida em sete partes: A Terra, A Água, O Fogo, O Vento, O Céu, As Duas Forças e A Harmonia Final. As cinco primeiras são uma referência ao Gorin, os cinco elementos básicos que, segundo o budismo, compõem a matéria. Desta forma, a história é uma metáfora para o autodesenvolvimento.

Vale acrescentar que tudo que você já viu – seja em filmes, HQs, outras mídias – de pessoas lutando com duas espadas, na verdade se deve a Miyamoto Musashi.


Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

Atualmente, quando se fala em literatura japonesa, é impossível não mencionar Haruki Murakami. Até mesmo porque nos últimos anos seu nome está sempre entre os favoritos ao Nobel de Literatura, embora o prêmio ainda não lhe tenha sido concedido. Em seu país é, muitas das vezes, desprezado pela crítica, por sua popularidade, digna de um verdadeiro best-seller.

Kafka à beira-mar é uma de suas obras mais complexas, um romance em que o leitor acompanha as trajetórias de dois personagens, Kafka Tamura e Nakata. O primeiro é um jovem de quinze anos que foge de casa e de tudo, viajando pelo Japão até chegar a uma pequena cidade do interior, onde trava amizade com um personagem curioso, Oshima, cujas características surpreendem o leitor. Já Nakata é um senhor analfabeto, mas digamos que um analfabeto nada convencional. Ele tem a habilidade de falar com gatos e dormir por mais de trinta horas sem se mexer.

Neste romance, o absurdo se dissolve em habilidosas metáforas. Murakami parece escolher cada palavra de forma a compor uma melodia, afiada e melancólica.


O livro do chá, de Kakuzo Okakura

Nenhum ocidental que deseja compreender a cultura do oriente deveria prosseguir sem ler O livro do chá. Embora não seja uma obra de ficção, o livro aproxima o leitor do ocidente a este mundo que nos parece tão diferente. Cada gesto, representação e, até mesmo, decoração pode ter um sentido profundo, que nos escapa à primeira vista.

Em 1906, o japonês Kakuro Okakura escreveu este tratado que explica os significados ocultos na cerimônia do chá, a chanoyu. Mistura de princípios do taoismo e do zen-budismo, este importante rito no cotidiano dos japoneses possui a força de imiscuir em seus participantes uma consciência da brevidade e simplicidade do mundo, algo que, convenhamos, falta muito a nós ocidentais.

Ao terminar esta leitura, fica-se com a sensação de que, com uma xícara de chá, pode-se redimir o mundo.


O marinheiro que perdeu as graças do mar, de Yukio Mishima

Depois de concordarmos que o título é péssimo (algum deslize de tradução?), vale acrescentar que se você receia encarar a tetralogia Mar da Fertilidade, indicada neste post, O marinheiro que perdeu as graças do maré uma boa pedida.

O romance, curtinho, conta a história de um garoto de treze anos que odeia o mundo adulto, juntamente com uma gangue de garotos da mesma idade. Quando sua mãe se envolve com um marinheiro, ao qual o menino admira, seus sentimentos se confundem. O que pode parecer simples e bobo, nas mãos de Mishima se torna um romance de profundidade psicológica, com um final que choca por sua crueldade.

Neste livro, assim como na maioria das obras de Yukio Mishima, é exposto o que há de mais brutal e erótico nos seres humanos.


Do que eu falo quando eu falo de corrida, de Haruki Murakami

Esta é uma obra que difere muito das demais desta lista. Ela consiste de uma mescla de ensaio sobre correr e ser escritor.

No ano de 1982, Murakami vendeu o bar de jazz que tinha em Tóquio e se dedicou integralmente a escrever, além de começar a correr em maratonas. Em 1983, cobriu o trajeto entre Atenas e a cidade de Maratona, na Grécia, e a partir daí se dedicou a correr longas distâncias. “O trabalho no bar me obrigava a ficar acordado todos os dias até muito tarde, respirando um ar poluído. A excitação com o meu novo cotidiano, dedicado exclusivamente a escrever, me impulsionou a adotar um estilo de vida saudável: acordar às cinco da manhã e correr passou a ser um exercício de renovação pra mim”.

O que chama a atenção nesta obra não-ficcional de Murakami é o quanto uma atividade física, a prática de correr, relaciona-se com o ato criativo de escrever. O japonês parece não ver diferenças entre uma coisa e outra, quebrando o paradigma de que os escritores são sedentários.

“Tento não pensar em nada de especial enquanto estou correndo. Na verdade, corro com a minha cabeça totalmente vazia. Mesmo assim, acho que exatamente por estar me concentrando em nada, alguma coisa surge naturalmente e, como um susto, de repente já está no meu pensamento. Essas coisas, eventualmente, acabam virando ideias que participam da minha criação literária.”

***

Além de ser uma das literaturas mais importantes do mundo, a literatura japonesa é muito rica. A leitura no Japão é uma prática que transcende o tempo – hoje em dia, por exemplo, o povo dos olhinhos puxados é um dos que mais consome ebooks para celulares.

Inúmeros outros autores poderiam estar nesta lista – como: Matsuô Bashô, Junichiro Tanizaki, Ryunosuke Akutagawa, Hisashi Inoue, Kenzaburo Oe, Ryu Murakami –, mas as obras aqui apresentadas são suficientes para um roteiro de iniciação na literatura japonesa.

Além do mais, fica aqui uma dica: quem quiser conhecer mais das obras literárias do Japão, encontra no Bungaku um material de encher os olhos, tanto de clássicos como de contemporâneos. Vale à pena!

 

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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